quarta-feira, dezembro 28, 2005
2oo5 em balanço
Por mais que a gente não queira, é inevitável dizer alguma coisa e chegar a conclusões sobre como foi o ano que termina.
Pra mim esse ano foi necessário. Nem bom nem ruim. Necessário.
2004 foi um ano terrível, quando me caiu a ficha do quanto muita coisa estava errada no rumo que eu tava dando na minha vida. Foi quando resolvi realmente que era hora de tentar estudar e encaminhar minha vida, minhas coisas, me livrar da dependência financeira e psicológica em relação à militância partidária. Foi o ano em que voltei a morar com a família, deixando anos de liberdade de moradias sozinho ou com amigos, onde tudo se pode, onde tudo é mais fácil.
Larguei um emprego financeiramente razoável para pegar empregos de salário mínimo. É assim que preparei o ano, bem no início de 2005. Não havia chances de ser um ano rentável, em que pudesse fazer as coisas: estava claro que seria clausura, estudo, trabalho, aperto, uma certa solidão. E assim foi. Saí em boates umas quatro vezes ao longo de todo o ano. Vi muito pouco meus amigos, mesmo que pra uma ceva no fim da tarde. Li muito, suei muito na rua. Mas me sinto hoje mais consciente do meu rumo, mais dono de si. A auto-estima está mais elevada, apesar dos problemas.
Foi um ano em que tive menos contato com as pessoas, inclusive com pessoas com que tenha ficado. Não aconteceram muitas coisas. Mas as que aconteceram foram boas, enquanto duraram.
Mas serviu pra definitivamente virar adulto, saber mais de mim. Já não me iludo tanto. Ainda quero mudar o mundo, mas já não sei mais como fazer. Ainda quero viver um grande amor, mas já entendi que as coisas não acontecem muito rapidamente. E que a pressão sobre os outros não ajuda. E assim vamos vivendo melhor, mesmo que numa primeira impressão, não pareça.
O mundo à minha volta se escancarou muito. Muita gente me decepcionou, muita gente apenas se revelou na sua plenitude. Mas isso também implica em surpresas positivas. O Barão de Itararé nem sempre tem razão quando diz que ?de onde menos se espera, daí é que não sai nada?...
O fato é que falta muito ainda... pra mim e pro mundo à minha volta. Ainda seguirei por um tempo mais sem dinheiro pras coisas que gosto. Seguirei tendo de agüentar o Lula, o Serra, o Rigotto, o Bush, pior de todos. Guerras, destruição, injustiça... Mas sigo sonhando: procurando ajudar nas soluções do mundo. Acreditando no amor... seja aquele abstrato, difuso, o tal do ?amor ao próximo?, seja aquele entre dois, aquele que é tão necessário e tão complexo de encontrar quanto o anterior.
Pra você que lê, fica o desejo de um feliz 2006, com as coisas que você busca, que normalmente são essas coisas: amor, um pouco de grana, saúde!
Referencial adotado
O grande problema de Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez está muito mais no fato de que talvez esperemos dele que lance um novo Cem Anos de Solidão ou um O Amor nos tempos do Cólera, como se isso fosse possível de se fazer, a toda hora. Esses eram os dois livros dele que já tinha lido e me encantado pela perfeição de cada frase, pela incrível viagem que proporcionam, pela identidade latina forte, ali, o tempo todo.
Memórias... é um romance curto, leitura para uma viagem de umas três horas ou umas duas noites, antes do sono. É bem escrito, como sempre. É uma história capaz de gerar polêmica, não fosse escrita por um escritor querido de todos: um homem de 90 anos resolve se presentear, no seu aniversário, com uma menina virgem. Em contato com a velha cafetina da cidade, ele consegue contratar uma noite de amor com uma menina de 14 anos. Tal fato muda sua vida, já que ele se encanta por ela, como jamais havia feito por outra mulher. A história consegue manter a velha identidade latino-americana que faz Garcia Márquez ser, afinal, uma literatura que nos diz coisas muito próximas e vai além ao tratar da relação que muitos homens "direitos" mantém com as putas, uma verdadeira instituição, ao menos nossa, latina. E também trata da pedofilia com a ousadia de algumas poucas obras. Por isso me surpreende que a imprensa geralmente tão moralista tenha sido benevolente como, aliás, deve ser sempre, com esse romance em particular.
É uma boa leitura de descanso. Mas não espere o melhor do autor, porque aí é melhor reler as duas antes citadas.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
Desespero agradável
Quem conhece Caio Fernando Abreu há de lembrar de um conto em que essa expressão está presente no título e em diálogos. E a dúvida: desespero agradável? Isso pode existir? Não serão as palavras totalmente contraditórias?
Outro dia me coloquei diante dessa dúvida por ver em um perfil de um amigo do orkut em que ele afirma: ?Um desespero nunca pode ser agradável?? Eu seguia com a dúvida.
Na minha noite de Natal descobri que pode, sim, um desespero ser, apesar de desespero, agradável.
Quando você chega numa festa e logo na primeira ida à pista de dança você descobre um rosto bonito de alguém que logo adiante também está a te olhar e você quer conversar com aquela pessoa, isso é, geralmente, agradável. Se o som da festa é bom, com uma maioria de músicas que estão nos teus CDs, sinal da coincidência com o gosto. Se tu está com a tua irmã, está revendo amigos, tudo isso vai compondo um grande momento, uma festa para sempre. E aquela pessoa está ali, te olhando. Você sai da pista, cruza com aquele sujeito. Ele te olha de lá, você de cá, mas nada de alguém se dirigir ao outro. A festa começa a encher, com o tempo passa a ter filas para uma simples ida ao banheiro. O lugar é apertado. E você já está cansado. São quatro da manhã. Você sai pela décima vez da sala improvisada como pista de dança, novamente cruza com a pessoa e segue sem saber se conseguirá falar com ela ou não. E aí bate o desespero. O mais desesperador está em ser tímido. E pensar que mesmo que você queira muito saber de uma pessoa, conhece-la, falar com ela, talvez beija-la, talvez você sairá daquela festa sem sequer dirigir a palavra. E talvez não vá mais vê-la. Isso desespera e faz você ficar mais um pouco, tentar de novo. Até que acontece de perder o medo e falar, quando realmente não há mais dúvida de que o outro quer, também, saber de você. Mas é, certamente, um desespero agradável.
sexta-feira, dezembro 23, 2005

Também é repetição dizer que gosto de assistir cinema nacional. Mesmo que nosso cinema ainda não seja o melhor do mundo. Creio que fazemos um cinema bem aquém daquele que podemos, mas muito melhor do que aquilo que a média do público brasileiro julga ser.
Mais uma prova de que temos produzido bons filmes está no recente Cidade Baixa, filme dirigido por Sérgio Machado, diretor da mesma escola do diretor Karim Ainouz, de Madame Satã(que por sinal divide o roteiro desse filme com o diretor Machado). Não à toa, o filme lembra o citado Madame Satã no seu aspecto sombrio e marginal. Também me lembrou muito Amarelo Manga, pelo tipo de personagens e cenário em que se desenvolve. Mas apesar das qualidades, Cidade Baixa é um pouco inferior aos dois citados.
A história é pesada: trata da paixão arrebatadora de dois biscateiros(magistralmente interpretados por Lázaro Ramos e Wagner Moura) donos de um barco por uma prostituta(feita por Alice Braga, muito próxima em talento aos dois). A partir disso, a vida do trio irá mudar radicalmente, num drama notável, que deixa claro que os marginais também podem amar e ter dramas, coisas que o cinema e a classe mérdea talvez não perceba bem, pois tenta sempre ao máximo ignorar essas personagens, seja na vida real, seja na arte, onde os pobres sempre são felizes e bem nutridos(vide novelas da Globo).
Por isso filmes como Cidade Baixa tem um valor: mostrar na cara a vida que muitos levam, sem fazer juizo de valor, apenas expondo a realidade. Eu particularmente tenho um certo fascínio por esse tipo de história e de vida, por mais que me mantenha bastante distante, a bem da verdade. Mas é isso: Cidade Baixa está aí pra mostrar que temos bons filmes, sempre. E que há um lado da Bahia - e de qualquer outro lugar - que não aparece muito nas propagandas das agências de turismo.
quinta-feira, dezembro 22, 2005
A impessoalidade
O mundo (pós-)moderno em que vivemos se caracteriza antes de mais nada pela impessoalidade. A inspiração pra esse post veio dessa pérola aqui, tirada do orkut:
"Erro.
Infelizmente, o orkut.com servidor agiu de forma inesperada. Esperamos que ele logo retorne ao seu estado normal quando você voltar a tentar em alguns minutos.
É provável que o servidor tenha esse comportamento durante os próximos meses. Pedimos desculpas pelo transtorno e pela falta de consideração do nosso servidor."
Como assim? Os caras criam um serviço e daí não dão conta da demanda. E o problema é "da falta de consideração do nosso servidor"? Rárárá!
Assim é também se você ligar para os famosos 0800 das empresas telefônicas, que lá estão para jamais resolver nada pra você, sempre alegando que "o sistema não permite". E nesse caso o "sistema", que é algo que não existe, a bem da verdade, é uma criação de quem o opera, está acima dos direitos do consumidor, Código Civil, a porra que for. Porque as empresas estão acima da lei, na prática. E usam a tecnologia apenas para isso.
Da mesma forma estão alguns outros serviços banais, que demoram graças à tecnologia e o seu mau uso. Quanto tempo você leva pra comprar uma lata de cerveja numa loja de conveniência de um posto? E quanto tempo leva para comprar no armazém da esquina? No posto você encara uma enorme fila, o seu produto é processado, passa no leitor ótico, faz isso, faz aquilo, muitas vezes você leva uma eternidade, mais tempo do que levará pra tomar a cerveja.
Daria pra resumir: é a tirania e a burrice andando quase juntas, nunca pensando em usar as atualidade para beneficiar a massa, apenas pra aumentar o lucro dos mesmos poucos de sempre...
terça-feira, dezembro 20, 2005

Não cabe repetir coisas que já disse antes: considero José Saramago uma das grandes personalidades vivas do mundo porque além de ser um escritor talvez sem igual entre os vivos, é uma personagem militante, alguém que não se furta a defender os desvalidos, a dar opiniões onde muitos se omitem. Li mais um livro dele, agora, um dos que me despertava curiosidade há algum tempo: Ensaio sobre a cegueira. A história trata de uma situação tipicamente kafkiana: numa cidade indeterminada, repetinamente, toda a população começa a cegar, sem maiores explicações para tal. Num primeiro momento o governo reage isolando os primeiros infectados, criando um regime de exceção brutal contra essa pessoas, num quartel. A partir daí começam a surgir os problemas todos, desde o autoritarismo do regime militar ao qual estão submetidos até as demonstrações mais brutais do homem sob tensão. Logo surge alguém com uma arma a roubar os demais, logo se restabelece ali, em alguma medida, as brutalidades do ?mundo lá fora?. Em meio a tudo isso uma mulher tem o privilégio(que também é um encargo) de enxergar, onde todos são cegos. É uma história sobre a natureza humana, sobre as excepcionalidades, sobre a podridão do mundo, a irracionalidade em que, na prática, já vivemos. Saramago que recentemente disse que não era ele o pessimista, o mundo é que era péssimo. Ler Ensaio sobre a cegueira faz apenas constatar que por mais que seja lugar-comum, dizer que Saramago é gênio é apenas fazer justiça à verdade.
terça-feira, dezembro 13, 2005
O cara
Vi domingo mais um desses programas especiais sobre Chico Buarque que a Band tem passado, às 22h. A cada dia fico mais convencido que ele é o grande brasileiro vivo. Por mais que esses títulos sejam sempre complicados de se dar.

A guerra do chafariz
Porto Alegre foi se notabilizando e se reivindicando como uma cidade tolerante, onde os preconceitos de toda ordem eram, no mínimo, menores que a média dos outros lugares. A cidade da democracia, a cidade sem preconceito e mais um monte títulos auto-atribuidos. Dentre essa fama, sempre esteve a questão de ser uma das cidades mais gueis do país, provavelmente. E dentre as referências do mundo guei da capital dos gaúchos, certamente esteve sempre o Centro Comercial Nova Olaria.
O Olaria é um pequeno lugar no bairro Cidade Baixa onde, a partir de um pequeno portal e uma área estruturada à volta de um chafariz, operam algumas choperias, um cinema e mais algumas lojinhas. O lugar existe desde 1995, mas a partir de 98, provavelmente, começou a ser um point a reunir gueis, especialmente nos finais da tarde de domingo. Todos muito bem vestidos, todos homens e mulheres com boa renda, capazes de, entre uma cerveja e uma salada, deixar ali bons frutos aos comerciantes.
E a cidade foi evoluindo cada vez mais. A fama do lugar e a crescente liberdade aos mais jovens de se expressarem foi consolidando ? e enchendo ? o lugar. De tal forma que agora se constantou que o Olaria ficou insuportavelmente cheio. E o principal: o público chique mudou de perfil e passou a ser majoritariamente composto por jovens classe baixa da periferia da capital que vinham se acotovelar e expressar toda a sua vontade de ser à volta do chafariz.
Com esse novo público, se instalou um conflito. As pessoas que realmente consumiam e faziam o lucro dos comerciantes passaram a se considerar mal acomodadas no lugar, especialmente os não-gueis que ali iam antes, quando não era tão cheio de jovens e pobres. E os comerciantes resolveram que não valia mais a pena ser o ponto de referência dos gueis, já que isso não lhes dava mais o lucro de outrora. Assim, é possível concluir que os comerciantes e o público em geral do Olaria não tem preconceitos contra veados, desde que esses sejam limpinhos, tenham dinheiro, ?não incomodem?.
Essa discussão não é apenas um debate teórico sobre preconceito a envolver Porto Alegre: é um problema de polícia, de confronto entre seguranças carrancudos e adolescentes de 15 anos que estão sendo corridos de dentro do Centro Comercial. Entidades que reúnem gueis tem protestados todos os domingos em frente ao local. Há muito tempo não ia lá num domingo e casualmente por lá passei no último, meio da tarde. A tensão está no ar mesmo antes de chegar o grosso do público. Mesmo que você seja um guei consumidor você se sentirá intimidado por seguranças enormes e grosseiros postados em todos os cantos do local: na entrada, na porta do cinema, na porta do banheiro, em cada lugar onde algum pequeno deslize possa ser cometido. Desagradável, no mínimo. Para bom entendedor, é possível ver claramente que a direção do local fez realmente uma opção: está abrindo mão do público anterior, prefere ficar vazio, recomeçar do zero, que manter o local como ele vinha sendo antes. Tanto que resolveu a polêmica ao seu modo, como quem pode dar as cartas: resolver restaurar o tal do chafariz, isolou a área e agora não há onde parar: ou nas mesas dos bares, consumindo, ou há apenas um corredor para chegar até as salas de cinema. Quem manda resolveu o problema ao seu modo.
Mas o que há por trás disso, além do conflito que está claro aí, nos jornais da cidade, o que de algum modo é salutar?
Duas coisas, a meu ver:
primeiro que o tratamento às minorias discriminadas na nossa sociedade pode até ser melhor, desde que essa minoria seja absorvida pelo Mercado: assim é com os gueis, assim é com os negros ou com as mulheres. Quando se trata de criar produtos dirigidos ao público endinheirado, bares ou o que quer que seja, sempre se pensa que há um público que pode gastar, que tem dinheiro. E aí se abre mão do preconceito, para lucrar com gente nova. Mas quando se é pobre, ser guei ou negro ou mulher vira uma agravante. Os comerciantes do Olaria ou a classe mérdea em geral aceita conviver com gueis desde que eles morem na Boa ou na Bela Vista, mas chuta pra longe se a bicha é de Viamão ou Alvorada.
Segunda coisa: o fato de vir gente de toda a região metropolitana para se aglomerar na volta de uma pequena fonte de água num bairro de Porto Alegre mostra o quanto a sociedade é intolerante em todos os outros lugares. Assim, em toda a Grande Porto Alegre há apenas um chafariz com três bancos à volta onde os gueis podem ir gritar, falar bobagem, caçar e tomar cerveja. Vivêssemos numa sociedade mais democrática, fosse Porto Alegre realmente a capital da diversidade, esse lugar não seria um pequeno Centro Comercial, haveria um ou mais parques que seriam ponto de referência para os veados, não apenas à noite, mas durante o dia mesmo, abertamente.
E assim seguimos, talvez resolvendo sempre a coisa da forma como o Olaria vai resolver seu problema: deixando a obra do chafariz ali, ad eternum...
sexta-feira, dezembro 09, 2005
Dura vida
Num post anterior tinha falado sobre uma possível recepção do Lulinha ao Corinthians. Pois ele recebeu mesmo. Deu abraços no Kia Joorabchian, inclusive. Deve ser para ele um herói. Nem o presidente se importa se o dinheiro que alimenta o título do seu clube está sujo de sangue.

Aproveitei ontem o feriado - Dia da Justiça, desses feriados que só o mundo do Direito tem - para ir ao cinema, depois de meses. E fui assistir a um filme que está quase saindo de cartaz, que durante todo esse tempo ainda não tinha conseguido ver, apesar de grande curiosidade: O Jardineiro Fiel, filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, com o meu ator preferido e, confesso, sonho de consumo, Ralph Fiennes e com a bela Rachel Weisz.
A história trata da investigação que o diplomata Justin Quaile passa a fazer após a morte de sua mulher, que vinha investigando e preparando a denúncia de irregularidades da atuação da indústria farmacêutica na África, com experiências que vinham levando pessoas à morte. Na sua investigação, Justin vai descobrindo tudo aquilo para o qual ele tentava tapar os olhos, num processo de descoberta assustador, envolvendo colegas de serviço, o governo da Inglaterra, todos.
O filme é impressionante. Primeiro porque tem uma grande história, que trata de questões absolutamente atuais: a crueldade de quem quer lucrar mesmo que com a morte dos outros, a realidade da corrupção, que não é um privilégio brasileiro ou latino. É também um filme moderno, que se utiliza das tecnologias da internet, dos vídeos, esse tipo de coisa, para construir cenas que o tornam um filme muto bem feito. Tem uma montagem excelente - do brasileiro Cesar Charlone -, atores magníficos, fotografia idem, é um filme pra ser visto com prazer. E uma ponta de satisfação por termos mais um brasileiro no cenário internacional do cinema, o Fernando Meirelles.
quarta-feira, novembro 30, 2005
Zé Dirceu: bengaladas ou garantias?
Hoje está marcada a sessão que deve cassar o mandato do até pouco tempo todo-poderoso deputado Zé Dirceu, um dos homens que construiu o PT tal qual vemos hoje, pra bem e pra mal(talvez bem mais pra mal que pra bem, mas enfim...)
"Zé" - ou até "Comandante", como alguns de seus súditos o chamam - tem alguns méritos inegáveis: dirigiu desde o início o PT e é responsável, evidentemente, pelo crescimento que o Partido teve, se transformando num fenômeno eleitoral em menos de 10 anos após sua fundação.
Talvez o maior dos problemas seja justamente depois dos primeiros dez anos, quando, vendo que podia chegar ao Planalto, ele e Lula operaram uma transformação no PT, transformando esse partido numa máquina eleitoral. As conseqüências, em alguma medida, se vêem aí: Caixa 2, "mensalão", dinheiro de banco, etc. Para "saltar" de um partido médio para o maior partido do país, o comando do PT abriu mão de muitos princípios éticos, "profissionalizou" o seu processo de mobilização e as suas opções em nome do objetivo de eleger Lula presidente e não mais sair do Governo Federal.
Descobertas algumas dessas artimanhas, Zé Dirceu caiu em desgraça: até em razão do poder que tinha, virou o principal alvo da oposição e mesmo de muitos governistas. Autoritário, arrogante, Zé era evidentemente detestado por políticos do norte ao sul, da esquerda à direita. A oposição tucano-pefelista parece deixar nas entrelinhas que depois de cassar Zé, nada mais lhe importa dos escândalos: terá chamuscado Lula e tirado de cena seu homem forte. Em especial alguém visto com maus olhos pelo Mercado: de passado guerrilheiro, Dirceu tinha influência junto a Lula e ameaçava, talvez, a "estabilidade". Ao Mercado interessa ter Palocci influenciando Lula, não alguém que a qualquer momento pode ter uma "recaída" para a esquerda. E não interessa ao Mercado nem aos tucanos ou ao Onyx Lorenzoni investigar de onde saiu o dinheiro que alimentou a corrupção, porque logo se descobriria os mesmos corruptores de sempre: os bancos, as empreiteiras e todos aqueles que defendem a livre iniciativa mas se mantém mamando nas ricas tetas do Estado.
A desgraça de Zé Dirceu é tal que ontem andava pelos corredores do Congresso e um sujeito se virou para ele e lhe deu "bangalaços" visando sua cabeça. Depois não sabia lhe explicar o que aconteceu: quando viu o Zé, lhe deu um ataque e ele não conseguiu pensar em mais nada.
Talvez o que esse senhor tenha feito seja a vontade de alguns milhões, seja dos que sempre odiaram Dirceu e o que ele representava, seja outros tantos, como eu, que gostariam de faze-lo para se vingarem por se sentirem roubados, traídos, golpeados no que há de mais caro para um sujeito, que é o seu imaginário, os seus sonhos.
Se pudesse votar pela cassação dele, certamente o faria a favor. Zé Dirceu deveria tirar longas férias sem mandato, de preferência suando na porta de um fórum escroto de bairro em São Paulo. Assim como ele, listaria mais uma centena de pessoas que gostaria de ver sem mandato - a começar por ACM Neto, ACM Filho, ACM Avô, Onyx Lorenzoni, Bornhausen, passando por Prof Luisinho... Enfim, que se vayan todos!
O grande problema está justamente que tudo aponta para Dirceu ser cassado e talvez ninguém mais depois dele. E que ninguém dê a idéia de tentar descobrir quem financia a corrupção no Brasil, antes e durante o Lula. Se verá que tanto antes como agora são os mesmos. Os que devem seguir financiando depois de Lula também...
Pra fechar: eu sou contra dar bengaladas em Zé Dirceu. E devo admitir que mesmo querendo ver ele cassado, admiro a persistência dele, apelando por todos os meios de defesa, resistindo, mesmo sabendo que será cassado. O direito de um ser humano de se defender é básico de um regime de justiça. Não permitir que isso aconteça apenas porque eu acho que ele é culpado ou porque ele é meu inimigo é uma das formas mais cruéis de se jogar as melhores coisas da democracia na lata do lixo. As garantias que a Constituição dá ao pior dos bandidos devem valer para todos. Porque hoje achamos que o Zé deve ser sumariamente banido da política e, de preferência, que morra a bengaladas na porta do Congresso. Amanhã seremos acusados de um crime que cometemos - ou não - e exigiremos tratamento digno. E aí já não haverão mais as garantias que um dia dissemos ser besteira.
Aliás, sobre isso: o mesmo Zé Dirceu que agora clama por garantias do direito de defesa viu sua turma expulsar num processo sumário e teatral alguns parlamentares do PT - Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro - por um delito de opinião, num processo arbitrário e com acusação coletiva. Ou seja: as garantias do direito de defesa servem pra mim, nunca pro meu inimigo.
sexta-feira, novembro 25, 2005
O Lulinha torcedor, o título do Corinthians e a visita casada
No final do ano passado, um fundo de investimentos chamado MSI fechou uma parceria com o Corinthians no sentido de investir no seu futebol. Um iraniano chamado Kia Joorabchian é o funcionário do tal fundo que aparece e administra os negócios por aqui. A origem dos milhões da MSI é absolutamente misteriosa. Kia é um sujeito com história nebulosa, já tendo aplicado golpes dos mais diferentes tipos ao longo de sua jovem e promissora carreira de testa-de-ferro-de-dinheiro-sujo. Ao que tudo indica, a origem do dinheiro é a máfia russa e as fortunas feitas durante a queda da União Soviética, que também é injetado em clubes europeus há mais tempo. Para maiores detalhes sobre o esquema Corinthians-MSI, vale ler as edições de número 95 e 96 da revista Caros Amigos, que detalham o rolo todo envolvendo esses ?investimentos?.
O Ministério Público(tanto Federal quanto o de São Paulo), assim como a Polícia Federal, investigam e estão indiciando uma dezena de pessoas, entre ligados à MSI e dirigentes do Corinthians por sonegação, lavagem de dinheiro, dentre outros crimes contra o sistema financeiro. O anúncio disso se deu na semana passada. Os processos devem ser instaurados em breve.
Em meio a isso, o Campeonato Brasileiro desse ano estará se encerrando com grandes suspeitas de manipulação de resultados, decisões arbitrárias do STJD(o Tribunal que decide questões do Campeonato, que mandou repetir partidas por suspeita de manipulação de resultados por um juiz e, com essa decisão, favoreceu imensamente o Corinthians) e erros clamorosos de arbitragem, como poucas vezes se havia visto no país. O último caso a chamar enorme atenção de todo o país ? de quem acompanha futebol, evidentemente ? foi um erro do juiz Márcio Rezende, que deixou de marcar um pênalti e ainda expulsou o jogador Tinga, do Internacional, no jogo contra o Corinthians, no domingo, 20, em jogo que terminou empatado. Uma vitória do Inter teria tornado improvável o título que, do contrário, deverá ficar com o time paulista, garantindo assim, de imediato, o retorno dos investidores russos.
As ?coincidências? a favor do time paulista ao longo dos últimos meses se tornam estranhas ao se pensar no volume de recursos que está por trás do provável campeão brasileiro.
O Presidente corinthiano e a visita que deveria evitar
Na entrevista coletiva que deu a diversas rádios às vésperas do jogo Internacional x Corinthians, o Presidente da República, torcedor apaixonado do clube paulista, falou em futebol. Que estava na expectativa do jogo, que, como dito, era uma espécie de ?final antecipada?, mas que nem queria que o ?Coringão? ganhasse do Inter, porque ele era Colorado no Rio Grande do Sul, mesmo que ?também gostasse muito do Grêmio?. Queria que seu time fosse campeão sem vencer o Inter e que ?queria receber o Carlitos Tevez no Planalto pra comemorar o título?. Tevez foi a grande contratação que a MSI fez esse ano, num entre tantos grandes negócios para montar um super-time. Curiosamente, nenhuma contratação do referido fundo se deu com clube brasileiro, mas apenas repatriando jogadores que estavam na Europa, sempre a peso de ouro. Assim, o dinheiro não entrava nem saia do país. A venda de Tevez é apenas uma das muitas pulgas atrás da orelha dos investigadores(MPs e Polícia Federal), dado que os valores declarados não fecham com os anunciados, o que o Boca Juniors(equipe que vendeu o jogador) anuncia ter recebido é bem menos que os valores que a MSI garante ter pago, dentre outras ?coisas estranhas?.
Ao anunciar que quer receber Tevez e os demais jogadores do Corinthians, Lula fez apenas mais uma das suas frases de efeito para, literalmente, ?jogar para a torcida?. Se receber, não será a primeira vez que Lula será populista na vida nem será o primeiro presidente no Brasil a se-lo.
A minha inquietação se encontra em outra coisa: ao anunciar de antemão e já deixar encaminhado que quer receber seu time como campeão brasileiro, o Presidente da República tem dimensão da origem escusa que provavelmente tem os recursos que estão levando o seu time a ser o campeão brasileiro de 2005, um ano que antecede eleição presidencial, por sinal(o que torna a recepção de Lula uma urgência ainda maior, para ele, certamente)? Mesmo sabendo, ele prefere tirar uma casca do entusiasmo corinthiano, apesar de eventualmente estar sendo conivente com os crimes que estão sendo praticados? Ou ele acha que poderá receber apenas os jogadores?
Evidentemente que ao receber o campeão brasileiro de 2005, Lula receberá desde o craque genial Carlitos Tevez até o brucutu zagueiro Marinho, passando pelo presidente do Clube, Alberto Dualib(acusado de, através de uma empresa de consultoria da filha, Carla Dualib, ter se tornado sócio das operações da MSI no país) e terminando, provavelmente, com a presença do nobre ?executivo? Kia Joorabchian. Kia que, aliás, quer estender seus investimentos também ao Flamengo, curiosamente o clube mais popular do Brasil.
Mesmo com todas as críticas e suspeitas, Kia parece ter vindo para ficar no Brasil. E pode estar contando com políticos incautos, ávidos por noticias nas páginas esportivas, para legitimar, indiretamente, seus negócios no país. Ao receber Kia, se isso eventualmente acontecesse, Lula estaria não apenas se utilizando da demagogia pra surfar na onda e ganhar alguns dividendos em meio a uma ?saída da crise? que o Governo ensaia para tentar, na entrada do ano eleitoral, lança-lo à reeleição. Estaria, na contramão dos aparatos investigativos do Estado e de todas as pessoas sérias do país, gostando ou não de futebol, legitimando uma operação provavelmente criminosa que ameaça se utilizar da paixão brasileira por esse esporte para desembarcar, definitivamente, no país, uma grande lavanderia do dinheiro sujo, num dos negócios mais rentáveis que pode haver: a exploração do imaginário popular. Dá dinheiro, dá voto.
Curiosidades do capitalismo
Divulgadas as contas das campanhas do referendo sobre o comércio de armas, uma notícia espantou os ingênuos: quase que o total dos recursos doados à campanha do NÃO foram bancados pela Taurus - empresa gaúcha que fabrica armas - e pela CBC - Companhia Brasileira de Cartuchos.
O presidente da Frente Parlamentar pelo Direito à Legítima Defesa, deputado Alberto Fraga(PFL-DF), de imediato, se saiu com uma declaração tipo: "é evidente que isso iria acontecer... afinal, quem tinha que defender seus interesses eram essas empresas mesmo..."
Ah, bom! Eu achei que o NÃO tava defendendo era o direito do "cidadão de bem" de se defender e não o direito das indústrias de seguir produzindo armas que irão matar pessoas...
segunda-feira, novembro 21, 2005
Valsa Negra
Patrícia Melo também é da turma de escritores do gênero policial, todos necessariamente bebendo na fonte Rubem Fonseca, um dos grandes autores vivos do Brasil e, pode-se dizer, o maior no romance policial de todos os tempos.
Em seu último romance, de 2003, a jovem Patrícia mudou um pouco o gênero. Ao invés de uam história de mistério, ela escreve com muita ironia e capacidade um romance sobre o ciúme e a loucura tomando conta do imaginário de um maestro bem sucedido que, depois de largar mulher e filha para se juntar a uma menina de 20 anos, passa a ser consumido pelo medo. A loucura dele vai precipitando fatos e tragédias à sua volta, numa espiral impressionante. O mais incrível na história é que é absolutamente verossímil. Me lembrou um filme francês chamado Ciúme - o inferno do amor possessivo, que é excelente, em que o sujeito enlouquece de ciúme em relação à mulher.
O que mais me impressiona nesse tipo de história é que elas são milhares no cinema ou na literatura. Quando um autor entra nesse tipo de narrativa, sempre será comparado. Logo, precisa ser bom pra evitar a crítica: "ah, mais uma história sobre ciúme". Pois aí Patrícia está muito bem: a dela não é apenas mais uma, é das bem escritas sobre esse tipo de situação.
A outra coisa que me impressiona muito é que sou um pouco assim quando estou num relacionamento. Já estraguei boas histórias por isso. É sempre curioso ler sobre. E pretendo um dia também tentar escrever sobre. Mas desde que não seja apenas "mais uma", como disse.
Policiais
Li mais um livro de Luiz Alfredo Garcia Roza, de quem falei agora há pouco: desta vez Vento Sudoeste, terceiro livro dele. Curiosamente, a história começa com um sujeito que procura o delegado Espizona porque está desorientado: um vidente previu que ele cometeria um crime e ele em alguma medida acredita nisso. Alguma coisa começa a bater no seu inconsciente, sabe-se lá(na verdade adiante aparecerá, num final interessante e aberto, como sempre devem ser os finais de histórias, a meu ver). É muito prazeirozo ler o texto de Garcia Roza, que acaba sempre sendo engolido em questão de um dia ou dois, no máximo. Como disse antes: o Brasil está se construíndo uma grande escola de romance policial, por mais que isso pareça uma preocupação meio estadunidense ou européia, de sociedade que podem perder tempo buscando solucionar crimes.
sexta-feira, novembro 18, 2005
... e um reânimar surpreendente!
Ontem foi um dia mais razoável que os últimos quinze que tinham passado...
À noite tive um trabalho de final de semestre em Processo Civil II, em que a gente deveria, devidamente trajado, apresentar oralmente um trabalho de apelação em relação ao qual havíamos trabalhado durante o semestre inteiro. Como sou bastante acostumado em relação a organizar uma fala em público, falar em microfone(mesmo que não goste), me portar perante uma platéia, consegui encarar e ir bem. De um total de 2 pontos, fiquei com 1,9. Um dos sinais de que esse semestre está sendo meu melhor desempenho estudantil desde a quinta ou sexta série. O que demonstra primeiro um mau sinal, mas também de que nunca é tarde pra melhorar. Pela primeira vez vou conseguir ter apenas notas acima de 8,0, coisa com a qual nem me preocupava antes. Mas que, no que você vai amadurecendo uma idéia de formação mais qualificada, vai vendo que se não é o mais importante, não deixa de ter alguma.
O risco de ficar sem trabalho e sem nenhum dinheiro está afastado, mesmo que já não vá mais ganhar o tratado antes, vá ser menos. Ainda assim, vou levando. Já acostumei a viver sem dinheiro, não haverá de ser uma tragédia. Ao menos não corro o risco que havia de ter de trancar o curso novamente.
Enfim, o dia de ontem começou uma onda melhor que hoje parece se confirmar. Terei um final de semana mais tranquilo que outros anteriores. Só falta o Colorado surpreender o país e encaminhar o título de campeão brasileiro, agora. E o ano estará terminando mais ameno por essas bandas...
segunda-feira, novembro 14, 2005
Um abatimento...
Os últimos quinze dias não está sendo muito generosos para mim. Dificuldade no trabalho devem me levar a ficar sem, dado que meu chefe terá que cortar custos em algum lugar e esse lugar é meu posto. Isso vai significar um grau de dificuldade bem razoável para mim nesse momento.
Junto com isso me abatem tantas outras dificuldades mais difíceis de mensurar, mas que tem a ver com todo o resto. A convivência com os amigos em baixa intensidade, a falta de tantos outros, um certo cansaço do ano que começa a pegar e que infelizmente não irei repor em algum lugar aprazível, mas no canto quente que eu ocupo da casa, no máximo. Tudo isso só vem se juntar à falta de dinheiro e de perspectivas pra me enfiar numa situação-limite que de algum modo é um tributo que eu tou pagando a tantos erros.
É sempre desalentadora a impotência diante do presente.
terça-feira, novembro 08, 2005
O polêmico não-beijo
Como sempre, os avanços nunca são realmente avanços. Sem grandes aprofundamentos, queria falar sobre a questão do beijo entre os meninos que não saiu.
A novela América, da famosíssima e sensacionalista Glória Peres teve um personagem guei, o Júnior, interpretado pelo lindinho Bruno Gagliasso. Merece nota que o personagem foi bem interpretado, bastante realista, de uma sensibilidade que poucas vezes um personagem guei em novela tem: normalmente são apenas escrachados, para fazer rir, como se a função dos gueis no mundo fosse, afinal, apenas fazer os outros rirem. Nesse sentido, parabéns a Glória Peres e ao ator Gagliasso, que foram bem, sairam da rotina, daquilo que se poderia esperar, afinal.
Mas e o final? A autora se lançou a dizer que, por ela, Junior beijaria o namoradinho Zeca no final. Diz ela que escreveu e que a cena foi gravada. Mas, dentre as outras alternativas, foi exibida outra alternativa, em que os dois meninos não se beijam. Diz a autora que foi uma decisão da emissora, não dela. Beleza.
Mas eu queria é comentar uma fala que ela fez na semana passada, antes do final da dita-cuja novela: "que a história toda tinha se desenvolvido de uma forma muito sensível e não precisava ter um final erótico".
Como assim erótico? Beijar na boca é erótico agora? Mas é só quando dois homens se beijam que beijo é igual a sexo?!
A solução talvez seja então que ninguém mais se beije na boca na TV. Ou estaremos tendo uma discriminação? Claro que sim! Aí está o problema!
Resumindo: a TV Globo e a sua funcionária Glória Perez ficaram fazendo alta propaganda, mobilizando expectativas de que iriam cravar na história da TV brasileira um marco - com o tal beijo na boca entre dois homens - e, no final, era tudo apenas propaganda para chamar a atenção para o final da novela - aliás, o final de maior audiência de todos os tempos, parece. Ou seja: deu certo a tática. Quando ao papel de quebrar preconceitos, blá, blá, blá, era apenas um blá-blá-blá global, apenas mais um.
E o que mais me impressiona: casal heterossexual se beijando é saudação, carinho; casal homo se beijar é pré-sexo.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Peso
Para quem busca na leitura de ficção uma simples diversão, um momento ameno, deve passar longe de João Gilberto Noll. Trata-se de uma escrita pesada. Li no final de semana seu romance Harmada, que foi adaptado recentemente para o cinema(num filme que talvez nem chegue à sua cidade, infelizmente, dada a precariedade da distribuição). Como sempre, o romance não tem uma história linear, um enredo claramente descritível, para se contar. Trata-se de um homem de personalidade complexa buscando resolver seus estranhamentos e sobreviver em meio a personagens que entram e saem sem maiores explicações. O protagonista é um ator de teatro que, durante um longo tempo, se refugia em um asilo, em meio a velhos, onde lhes conta histórias, em boa parte, que ele viveu. Após, foge com uma menina que se torna como que sua filha. Por mais que pareça muito estranho - e é -, o texto de Noll é fascinante pelo cuidado com cada palavra que ele parece ter, coisa de grande escritor. E com o fato de que em meio a todo aquele estranhamento, nos vemos. Sempre que leio Noll sinto vontade de sair escrevendo. Talvez para um dia, quem sabe, chegar perto...
quinta-feira, outubro 27, 2005
Excreções e desatinos
O que faz alguém cagar e depois espalhar a merda em toda a privada, num banheiro público de um prédio de uma faculdade?
Só pode ter merda na cabeça...
A história da formação da cidade
Décio Freitas morreu ano passado. Era o historiador mais badalado da praça, escrevia para a Zero Hora, era uma espécie de "históriador preferido das elites", poderia se dizer, grosso modo.
O maior crime da terra, um de seus livros, "meio que" resgatou uma história escondida da cidade de Porto Alegre, de meados do século XIX: os chamados "crimes da Rua do Arvoredo". Um casal - José Ramos e Catarina Palse - mais um acougueiro mataram quase uma dezena de pessoas de forma brutal e, não se contentando, esquartejaram e fizeram linguiça com sua carne. José Ramos a vendia às grandes autoridades da cidade, de carroça, oferecendo de casa em casa. O que sobrava, o acougueiro vendia em seu estabelecimento.
O livro trata disso. Uma história incômoda que foi escondida por muito tempo, de muitas formas. Décio conta que descobriu o assunto quando fez, ainda jovem, uma serie de reportagens sobre crimes célebres da história da cidade. Publicou os crimes de José Ramos mas foi recomendado depois a deixar o assunto. Os processos que haviam sido base de sua pesquisa sumiram... Enfim, trata-se de um episódio que à época foram reprimidas as investigações e que um século depois continuava sendo encoberto, dada a vergonha que gerava, tornando-o um tabu.
De um lado, tem o mérito de trazer à tona a história, mais uma vez. De situar um pouco o modo como a cidade vivia naquele período, um pouco sobre o funcionamento da Polícia, que era absolutamente misturada com o Judiciário, num sistema absolutamente inquisitorial(mistura das funções de acusação e julgamento de crimes), além de curiosas descrições sobre ruas.
Por outro lado, fica um sentimento do livro ser um pouco superficial em relação aos crimes. Não se definir entre uma reportagem e um romance. Tanto assim que gerou outros livros posteriores, teses acadêmicas, sempre procurando demonstrar equívocos na abordagem que Décio fez.
Não sei maiores detalhes. Mas achei instigante... Creio que as cidades deveriam reconstruir melhor sua história, reforçando, assim, sua identidade como tais.
quarta-feira, outubro 26, 2005
A primeira sessão de autógrafos
Ontem foi lançada a antologia 102 que contam, reunindo histórias de alunos e ex-alunos das oficinas literárias coordenadas pelo escritor Charles Kiefer. Dentre eles, estava incluído com o conto que está abaixo, no post anterior.
A iniciativa é muito boa. A gente se sente satisfeito, é uma sensação bastante recompensatória se ver publicado, mesmo que entre tantos. É bastante estranho autografar livros, me senti muito constrangido, passando a entender muito bem o porque de tantos escritores que vivem reclusos e se negam a participar de momentos de badalação pública.
A publicação me fez sentir a necessidade de voltar a ler mais literatura e especialmente a voltar a dedicar algumas horas por semana a seguir escrevendo. Para que não tenha sido a de ontem a minha única publicação.
JOGOS
PURIFICAÇÃO
Era isso que aquele banho devia oferecer. É apenas um bom banho quente, melhor que o chuveiro habitualmente queimado, da sua casa. Limpa seu suor, o cheiro de mulher, o esperma, mas não a culpa. Marcelo se seca com uma toalha azul celeste emprestada, do amigo Edgar. Nas vezes em que já o visitou e mesmo usou seu banheiro, sua toalha, seu perfume, sempre se sentiu melhor na acolhida do outro que no sexo de agora.
IMPACIÊNCIA
Na sala está Adriana, mais um cigarro de uma série, enquanto aguarda para tomar banho, também. Tem sono e quer se ver livro do parceiro, para descansar. De manhã, tem que pegar Edgar no Aeroporto, às onze. O nervosismo que Marcelo estava demonstrando agora não lhe agrada em nada, não quer conversas culpadas entre mulher e amigo do traído. Não acredita nisso.
TEMOR
Conseguirá que ela não conte o recém-ocorrido ao Edgar? "Foi tudo por acidente: a gente conversou, ela começou a provocar... Depois que a gente se chapou, fiquei bêbado, quando vi.." Nada disso cola. Ao menos não deveria ter feito ali, na casa dele... Ela sempre acaba contando tudo para o namorado, por mais que ele implore para não saber. CONTROLE
Adriana detesta a amizade entre Marcelo e Edgar. Sempre viu nela um grande perigo para o controle que exerce sobre seu relacionamento, o perigo de que talvez seu namorado um dia a deixe, não aceite mais as regras que ela sempre impôs: liberdade de relações extraconjugais que só ela mantém; o trabalho dele que sustenta o estudo dela; a hospedagem freqüente do seu irmão que Edgar detesta, pra falar de algumas das opressões que irritam os amigos mais próximos dele, especialmente os que o influenciam: Marcelo, especialmente. Quebrar o elo entre eles sempre foi um objetivo: dividir para dominar.
CONSTRANGIMENTO
Ele sai do banho já de calça, sem camisa. Não consegue mais andar pela casa completamente nu, como antes. O arrependimento e a vontade de sair dali o mais rapidamente possível são suas vontades. Ela lhe sorri de uma forma que não sabe interpretar se como cinismo ou ironia. É dona da situação: logo após treparem, foi à janela fumar. Sentiu-se como nas vezes em que pagou por sexo: frieza, conquista barata, nojo. Mais alguns minutos naquele lugar lhe serão pesados. Ele circula, olha com atenção e culpa as fotos do amigo pelas paredes e mesas. Aproxima um desses porta-retratos, olha fixo para a foto de Edgar, como a lhe pedir perdão ou o que fosse possível. Quando o verá de novo? Sente culpa, mas sente principalmente saudade, carinho. Mexe discretamente no roupeiro: mais perfumes, o calção com que o outro joga futebol, camisas conhecidas, coisas que conhece em Edgar, na intimidade que compartilham, infinitamente menor que a idealizada, ao menos por ele.
ESCAPE
Ela sai do banheiro apenas de calcinha e camiseta. Ele confirma que vai embora, apesar da insistência breve dela para que fique: podiam ver os jogos que estão passando na madrugada, das Olimpíadas. Se abraçam à porta, não chegam a se beijar. Ele está tenso, nem disfarça. Ela mantém o sorriso vitorioso.
REVELAÇÕES
Pela manhã, antes de sair de casa, ela já deixa os ingredientes prontos para o almoço que fará assim que chegarem de volta do Aeroporto e vai buscar o namorado. Espera por uns dez minutos a mais que o previsto, é um pequeno atraso do vôo. Sem tirar os óculos escuros, abraça Edgar assim que ele sai do portão de desembarque, pegando pela alça uma das suas malas. Ele conta que teve um vôo um tanto turbulento, há chuvas esparsas no Paraná. E pergunta como ela se virou nesses dias, sozinha. "Muito bem. Acho que passei nas duas provas que eu fiz, viu? Eu andava preocupada, tu sabe." Ainda dentro do saguão, já se encaminhando para a porta de saída, acende um cigarro. E segue contando as novidades: "Ah, adivinha quem teve lá em casa, vendo as Olimpíadas, essa noite..."
terça-feira, outubro 25, 2005
Talvez o maior
Ler Machado de Assis é sempre interessante. Mas como já falei em outra oportunidade aqui, é algo que se demora a perceber o quanto é bom. Logo que entramos no segundo grau, somos obrigados a ler os clássicos e passamos a achar um saco. Mas Machado é certamente o melhor ou o segundo melhor escritor brasileiro de todos os tempos - eu sou muito fã de Lima Barreto. Ler suas obras significa tomar parte de um Brasil que os brasileiros não conhecem quase nada: nosso período do Império. Perceber um período em que a escravidão era um instituto natural soa estranho. Sabemos que o Brasil foi o último país do mundo a abolir formalmente a escravidão. E que ainda não aboliu-a materialmente. Ler Machado, nessa idade que tenho, faz refletir sobre coisas interessantes... Certamente um país que se preocupasse com uma formação mais clara de uma identidade teria mais estátuas de Machado de Assis e Lima Barreto e menos estátuas de generais...
Memorial de Aires foi o último romance dele, publicado em 1905, ano de sua morte. Tem a clareza de um Machado maduro, já um tanto fora do tempo em que tinha desenvolvido boa parte de sua obra. Está lá, em um grande romance.

Luiz Alfredo Garcia Roza é um escritor de trajetória interessante: depois de ter atingido tudo o que um profissional poderia atingir na Academia, como professor e pesquisador na área de psicologia, resolveu tentar a sorte publicando ficção. Mais peculiar ainda: romances policiais.
Hoje terminei de ler seu segundo romance - e o segundo que eu leio - Achados e Perdidos. A história começa com o assassinato de uma prostituta no Rio de Janeiro. Mulher essa que tinha um caso com um delegado aposentado. A partir daí, uma série de mortes e perseguições vão montando um enredo complexo que envolve o aposentado Vieira e o delegado Espinoza, que é o personagem de Garcia Roza em todos os seus romances - característica de muitos autores desse gênero. Trata-se de um livro muito bem escrito, empolgante como deve ser uma história policial e com um tom tão agradável que nos faz sentir no calçadão de Copacabana, cenário por onde circulam os personagens.
Em menos de dez anos, Garcia Roza virou autor com grande vendagem, tradução em diversos idiomas. Pode se dizer mesmo que ele está sendo responsável por uma invenção do romance policial no Brasil, tarefa um tanto ingrata, considerando que os dias de hoje e a realidade de um país como o nosso não permitem muito se pensar num gênero policial muito prestigiado. A idéia de uma grande dedicação de um grupo de policiais a desvendar um crime é algo pouco verossímil em considerando-se a pilha de inquéritos abarrotando as mesas de autoridades policiais. Mas o autor brinca com isso, joga com a realidade e o glamour exigido ao gênero, tornando suas histórias interessantes. Bela leitura!

O fato de Lutero ter sido um filme financiado pela Igreja Luterana como forma de divulgação de sua história pode tornar o protagonista um herói maior do que foi, mas não tira do filme a sua condição: um grande trabalho.
A história da cisão da Igreja Católica diante da chamada Reforma Protestante é um episódio importante da história da humanidade. Max Weber escreveu um livro em que procura demonstrar que a criação e expansão do luteranismo é um dos elementos centrais para explicar também a consolidação do capitalismo como sistema econômico, dado que os dogmas católicos - de então - emperravam a expansão das idéias capitalistas, dado que condenavam muito o lucro, a riqueza, o que a religião protestante passou a não fazer.
Mas sobre o filme: tem grande atores, belíssimos cenários, direção de arte, tudo isso. Tecnicamente, é cinema do bom. Vale a pena, é um bom filme pra se ver numa tarde de sábado em que não haja nada melhor... ou já se tenha feito o que de melhor é possível fazer numa tarde de sábado.
segunda-feira, outubro 24, 2005
Parece piada
Um episódio ocorrido em Minas Gerais na madrugada de sábado para domingo, num boteco, ilustra o que estava em jogo ontem e as pessoas não entenderam:
Dois sujeitos discutiam sobre as posições do referendo que dali a algumas horas ocorreria, meio bêbados. Lá pelas tantas o defensor do Não começou a se exaltar e gritar. Sacou uma arma e deu três tiros no peito do outro.
Defendia o direito de continuar fazendo isso...
Apesar da deprê...
... em razão do resultado acachapante do Referendo de ontem, vou tentar retomar esse espaço de novo.
Por que a tristeza?
Porque eu sou um sonhador, meio idealista. Gostaria de viver num mundo onde as pessoas não se dispusessem a resolver tudo na faca ou na bala. Até porque nesse mundo que resolve as coisas na faca e na bala, quem prevalece não é o justo, é o forte. Infelizmente, quando vejo algumas pessoas falarem, vejo que ainda não conseguimos sequer consolidar determinadas coisas do iluminismo. O resultado avassalador de ontem, - em que 85% das pessoas do meu estado decidiram manter o direito de uma meia dúzia de homens brancos, ricos e heterossexuais terem o direito de seguirem matando suas mulheres ou algum pobre que atravesse à sua frente ou resolver a briga no bar da esquina à força apenas porque pode ter uma arma - é um sinal de que boa parte dos valores em que acreditam nunca prevalecerão ou ao menos nunca verei eles prevalecerem em vida.
E isso me deixa desestimulado a seguir estudante p´ra ser um advogado que quer defender a justiça, os pobres, os direitos constitucionais. Isso tudo é balela, no imaginário de mais de 60% dos brasileiros. A vida não é a prioridade, mas o patrimônio.
Muitos outros Maurícios terão de ocorrer: o primo com quem me criei que, aos 13 brincava com uma arma de fogo do pai de um amigo e, acidentalmente, levou um tiro. Nunca mais caminhou. Tantos jovens que se matam com a arma que o pai paranóico um dia comprou pra defender sua família de um inimigo imaginário. Tantas mulheres que são mortas por seus maridos numa briga que deveria ser resolvida com um simples divórcio.
O que mais me choca é que dentre os 60% de ontem, muitos não são brancos, ricos, heterossexuais nem homens. Portanto, só terão algum contato com arma para serem delas vítimas. E não se dão conta disso.
terça-feira, outubro 11, 2005
Deveria
Eu tinha que tentar retomar esse espaço aqui. Não tá fácil...
segunda-feira, outubro 03, 2005
Um pequeno desabafo
Ontem foi um dia amargurante, sem dúvida alguma. Porque o futebol é uma das manifestações mais bonitas que o povo pode fazer. E o final de semana em Porto Alegre ? um final de semana quente, com um sol bonito ? tinha tudo para ser inesquecível. No sábado, o greminho, que disputa a segunda divisão do Brasileiro, disputava uma partida importante para seus objetivos, que são de um dia deixar de ser um timinho de segunda divisão. Botou umas quarenta mil pessoas no seu estádio(bem, chamar o Olímpico de estádio é um exagero, mas...). No domingo, o Inter, provando ser um clube maior, mais popular, colocou cerca de cinqüenta mil pessoas em seu jogo. Mas sem brincadeira: noventa mil pessoas se movimentaram em função da paixão pelo futebol na capital. Numa cidade pequena, que tem, afinal, um pouco mais de um milhão de habitantes. Seria como dizer que quase dez por cento da população da cidade foi a um jogo. Bonito isso, independente de pra quem se torça ou mesmo pra quem não gosta de futebol. Há um fato: as pessoas se divertiam, curtiam um pouco uma coisa que lhes dá algum prazer. No final do jogo de ontem, uma briga no interior de uma organizada ? coisa que as próprias organizadas regulam, por sua conta ? mereceu, na avaliação da Brigada Militar, a interferência policial, a cassetetes. Em pouco tempo a Brigada ocupou a área da Torcida Camisa 12 e tudo parecia resolvido. O jogo termina e a Brigada segue batendo nas pessoas à volta da 12, como que querendo manter o confronto. Da arquibancada superior, exatamente da altura acima à que ocorriam os fatos, populares começaram a reagir contra a BM ? uso a expressão ?populares? como contraponto a eventuais torcedores organizados, que são estigmatizados como baderneiros, etc. Como forma de expressar a raiva contra a Polícia ? que é senso comum entre quem freqüenta futebol no Estádio, por um histórico de truculência contra as pessoas comuns -, começaram a ser arremessados engradados e outras coisas da superior para onde ocorriam os fatos, na chamada Geral. Pude testemunhar, do anel superior, o que ocorria lá embaixo: a Brigada começou a fazer o que lhes cabia: tentar se retirar do local, evitando que o confronto se extendesse indefinidamente. Nesse momento de recuo, parte da torcida ? provavelmente a maioria de membros da 12 ? passaram a atacar a Brigada, jogando pedaços da arquibancada, tambores e outros. A retirada dos brigadianos se dava através de portões da Popular Placar, setor vizinho ao local do confronto inicial. Para sair por esse local, a PM atropelava populares que nada tinham com a briga. Nunca vou esquecer a cena de um rapaz de uns trinta e poucos anos abraçando uma senhora, talvez sua mãe, que os brigadianos estavam levando de arrasto, numa violência desesperada, tentando fugir do ataque. Quando tudo parecia se encaminhar para um final, já que quase todo o pelotão estava protegido e se retirando, alguns brigadianos começaram a jogar de volta os pedaços de pedra que lhes tinham sido jogados, numa postura irracional, que jamais imaginei que veria acontecer ? até porque a Polícia tem que evitar o confronto, se defender e defender aos cidadãos, nunca revidar como se uma gangue fosse. E de tijolos na mão, a linha de frente do pelotão avançou de novo, generalizando o confronto. A partir daí, começaram a chegar reforços e a serem lançadas bombas de efeito moral. Nesse momento, mesmo estando quase em choque, resolvi sair do Estádio, apesar dos riscos de qualquer movimento àquele momento. Achei que a violência poderia ecoar sobre a superior também. Bingo! Da rampa lotada ouvíamos as bombas estourando na arquibancada e o chão tremendo, longe. Pessoas chorando. Na rua, a polícia montada chegando, avançando com a rotineira truculência sobre pessoas que só queriam sair dali. Depois saberíamos que as bombas foram lançadas contra a multidão na Geral, na Social, para cima, visando atingir a Superior. Qual o sentido disso tudo? Fica claro que há um senso de impunidade, dado que a arrogância com quem os comandantes da operação e o Sr Secretário de Segurança responderam aos apelos da imprensa foram chocantes, para quem havia sido testemunha ocular ou vítima dos fatos ? crianças mutiladas, velhos agredidos, jovens atacados. Uma violência inominável ocorreu ontem no Beira-Rio. Culpa da truculência institucional da Brigada Militar do RS. O reflexo disso é um amargo em cada uma das pessoas que lá estiveram. A impressão de que não vale a pena sair de casa para sofrer esse tipo de violência ? tanto física quanto moral. Estraga o bom humor e a fraternidade típica de quem vai ao Estádio ver seu time, vibrar, descarregar as frustrações, tudo isso que faz o futebol ser a maior paixão nacional. Seguirei indo aos jogos, porque sei que há risco em tudo. Cazuza já dizia, se referindo a outras coisas, que ?o meu prazer agora é risco de vida?, o que vale para o caso que estamos tratando. Mas em tudo há risco. Mas as minhas decisões eu tomo, como adulto, independente, livre. Mas e um pai de família que ontem estivesse levando seu filho pensará como eu? Dificilmente. Se tivesse um sobrinho ou filho de um amigo comigo ontem, dificilmente o levaria de novo, posso dizer de pronto. Se tenho medo da minha integridade física, o que dizer de alguém porque sejamos responsáveis? Infelizmente, mais uma vez, é a violência do Estado contra o povo que cria o pânico. Fica o temor e as dúvidas. E a ânsia por respostas...
quarta-feira, setembro 21, 2005

Ontem fui ver mais um desses "filmes necessários" que falei no post anterior, sobre Hotel Ruanda.
Memória do Saqueio é um documentário argentino, dirigido por Fernando Solanas e conta a história da Argentina nos últimos vinte anos, da redemocratização até o panelaço do final de 2001 que levou o presidente De La Rua a renunciar, diante da tomada das ruas pelos populares.
Mesmo que tenhamos muita rivalidade - uma coisa meio futebolesca-irracional - somos parecidos com os argentinos. Não me venham com "eles são mais europeizados" ou "não, eles são pnc"... Nada disso: somos todos latinos, eles talvez um pouco mais sangue-quente que nós, mas o esquema de dominação que é mostrado no filme, a miséria de uma parcela expressiva da população, uma elite política corrupta ou corruptível, tudo isso parece muito. Alfonsín parece Sarney, Menem parece Collor, De La Rua parece Lula... enquanto andava o filme, eu via a nossa história, correndo em paralelo.
Merece atenção, esse Memórias do Saqueio.
sábado, setembro 17, 2005
É querer!
Quando você resolve fazer um negócio bem feito, precisa se empenhar muito. Eu sou assim: quando entro numa coisa, é obssessivamente. Assim eu sempre fui com a política, me tornando um chato; assim eu sou com a matéria de aula, lendo várias fontes além do básico; essa semana fui fazer uma primeira petição inicial e vi que não me contento em consultar e citar a legislação, o "feijão-com-arroz" já suficiente: fiquei dois dias pesquisando; quando voltei a acompanhar futebol, me associei no Inter e vou a quase todos os jogos.
Só isso justifica uma pessoa estar na sua universidade num sábado pela manhã para assistir a um curso sobre normas da ABNT. Porque necessariamente cheira a irracionalidade...
quinta-feira, setembro 08, 2005

Há filmes que não são bons ou ruins. São necessários. Esse é o caso de Hotel Ruanda.
Ruanda é um país africano. Onde só mora negros. Por isso, os olhos do mundo inteiro não estão voltados para lá. Assim, pôde acontecer de uma guerra civil gerar mais de um milhão de mortes sem que o "mundo civilizado" intervisse de forma razoável para evitar o problema. Essa é a lição que o filme procura nos dar, através da história de seu protagonista, um gerente negro de um hotel belga para brancos que, quando os donos do hotel fogem, torna o hotel um campo de refugiados.
Mas o que o filme me trouxe foi mais: porque a violência? A humanidade evolui através da opressão de uns sobre outros? Genocídios resolvem algum problema? E fiquei a pensar sobre muitas coisas...
E triste: sai a caminhar ontem, depois de ver o filme, pensando no quanto somos maus. E no quanto somos alienados, já que os fatos tratados no filme são de 1994, num país africano da qual saiu talvez uma parte do nosso povo brasileiro de hoje - os descendentes de escravos sequer tem certeza de onde está sua origem precisa - e nós não ficamos nem sabendo desses fatos, à época, senão superficialmente. Somos insensíveis e alienados com nossos irmãos.
terça-feira, setembro 06, 2005

Passando em segunda temporada por aqui, fui ver Cabra Cega, de Toni Venturi, certamente o melhor filme brasileiro desse ano, que anda mais pobre de produções que já tivemos em outros anos.
Cabra Cega trata da história de um homem que, caçado pelos militares nos anos 70, é levado para o apartamento de um arquiteto colaborador, onde fica refugiado, convivendo com o dono do apartamento, com uma menina companheira de organização que vai todo dia visitá-lo e com a vizinha do apartamento da frente, uma senhora espanhola que perdeu o filho no tempo da ditadura de Franco.
Trata-se de um filme tecnicamente primoroso: bons atores, trilha sonora magnífica, boa fotografia, boa direção de arte, todas essas coisas. E tem um roteiro muito bem escrito, que explora o enredo com grande talento. É um filme que incomoda, que dói o tempo todo pela tensão que traz e pelos pensamentos incômdos que necessariamente ele desperta: o que a esquerda que tanto sofreu fez consigo própria? Nada melhor que ver esse filme para se sentir obrigado a reagir a esse momento atual, anos 00, em que todos nós que queremos mudar o mundo estamos nos sentido assim, tão traídos, tão desestimulados. Há gente que sofreu bem mais que nós...
quarta-feira, agosto 31, 2005
Medo!
Li ontem, de uma sentada, Século XXI: Socialismo ou Barbárie, do húngaro Istvan Meszaros, um dos mais importantes teóricos marxista vivos. Nesse livro breve - li entre a ida e a volta da aula -, ele fala sobre as perspectivas da humanidade em meio a guerras e uma fase absolutamente cruel do imperialismo. Das possibilidades da humanidade sobreviver em meio a tudo isso.
Escrito antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, já falava claramente sobre o porvir da Era Bush que, então, recém se iniciava. Hoje é possível ver suas análises com muito maior clareza e certeza e, tristemente, constatar que o pessimismo de Meszaros tem razão de ser: como ele conclui, "barbárie, se tivermos sorte".
terça-feira, agosto 30, 2005
Tentei...
Eu tenho uma disposição a enfrentar determinadas coisas em termos culturais que a maioria já não tem. Raramente desisto de um filme depois que começo, poucos são os casos na vida em que deixei um livro depois de começar. Mas não teve jeito: Macunaíma é muito estranho pra minha pobre cabeça. Quem sabe daqui mais algum tempo, com muito fumo, eu tente de novo. Atualmente nem fumando eu tou...
segunda-feira, agosto 29, 2005

Vi em DVD no sábado o filme Interiores do sempre muito bom Woody Allen, de quem gosto muito. Mesmo que se acuse com razão que Allen trata em seus filmes de uma realidade restrita à classe média alta estadunidense, jamais saindo disso, ela ainda assim o faz bem. Seus filmes tem histórias excepcionalmente bem criadas e bem desenvolvidas, através de diálogos inteligentes, sendo sempre filmes agradáveis e, vez que outra, de fazer pensar muito.
É o caso desse, um dos poucos dramas da extensa filmografia de Allen. Trata da história de uma casal de sexagenários que resolve se separar e a relação destes com as três filhas, além da relação delas entre si, com seus maridos, etc. São noventa minutos de humor, reflexão e profundo prazer do cinema, no que ele tem me melhor a nos oferecer. Achei excelente!
Uma certa paz
Tenho vivido dias de maior paz, há algumas semanas. Tudo parece conspirar a favor - especialmente eu, que talvez não tenha me ajudado em outros momentos. Faltam muitas coisas: falta dinheiro, falta muito conforto, falta grana, falta um amor, ... Mas o simples fato da gente se sentir em paz, ter problemas que o tempo irá resolver, isso é bom, traz um sossego.
Depois de uma semana que me abriu perspectivas, com o novo trabalho, tive um final de semana muito aprazível. Ontem, depois de uma noite chuvosa, vi o dia se abrir e pude ir ver o Inter ganhar do Cruzeiro por uma goleada - 4 a 1.
Mas sábado foi um dia muito melhor, diria. Li algumas coisas, botei em dia os cadernos e ainda dei uma volta aprazível com um amigo distante, mas muito querido. Que há coisa de três anos, destruiu minha pobre cabeça: nos conhecemos e eu fiquei tão encantado que larguei tudo, foi como a desculpa que eu precisava pra terminar uma relação que era estável, mas apenas isso. No entanto, nunca rolou nada entre nós, fora uma sintonia muito grande. Fazia algum tempo que não convivíamos como antes, de ir ao cinema, conversar muito, essas coisas. Um ficar junto que não tem um toque sequer, mas faz bem. É como se eu namorasse com ele, mas ele não soubesse. Por algumas vezes até pensei em falar sobre isso, mas creio que de nada somaria, porque provavelmente não acontecesse nada, talvez apenas o rompimento, pelo constrangimento, do vínculo que existe. É, essa é uma das minhas maluquices.
terça-feira, agosto 23, 2005
Mais mudanças
Se os acontecimentos da política me deixam um pouco deprimido, porque de alguma forma meus sonhos e projetos coletivos foram roubados, pra usar uma feliz expressão do Marcos Rolim, esses dias, em Zero Hora, ao menos tenho sido bem sucedido no andamento de uma parte das minhas coisas.
Há cerca de três semanas, fui avisado que não era mais possível permanecerem comigo no escritório onde eu estava trabalhando desde fevereiro, que o final desse mês era o limite. Em uma semana consegui outro trabalho, no qual começo amanhã. Vou ganhar um pouco mais até! Parece que aconteceu o que eu precisava mesmo, numa hora boa. Estou bem entusiasmado e determinado ao novo trabalho.
Claro que vai continuar faltando grana pra quase tudo o que eu gostaria, mas parece que as perspectivas começam a existir pra mim. Depois de um 2004 lamentável sob todos os aspectos, esse ano tem sido de recuperar as forças, tá sendo muito bom, quase tudo.
Desafios: enfrentá-los é o único jeito!

No sábado fui ver Teorema, do polêmico Pier Paolo Pasolini, que, ao que me consta, é o último filme dele antes de ser assassinado, no final dos anos 60. O filme, de 68, está bem inserido no clima desse marcante ano: é uma denúncia geral à hipocrisia burguesa, à repressão, essas coisas todas que, por mais que minoradas, estão aí, vivas dentro de cada um de nós.
A história: um jovem, que ninguém sabe bem de onde vem, visita uma familia típica burguesa: um cinqüentão industrial, sua mulher bonitona-perua, um menino e uma menina adolescentes. E esse jovem passa toda a família em revista, deixando-os logo a seguir, completamente transtornados, desintegrados, à beira da loucura.
Várias são as conversas possíveis, mas o essencial é a idéia de que a felicidade com repressão não é felicidade.
quinta-feira, agosto 18, 2005
Egoísta?
O orkut nos permite reencontrar uma série de pessoas, umas queridas, outras nem tanto, saber que estão bem ou mal pessoas que conhecemos há quinze ou vinte anos. É uma experiência bem complexa.
Hoje reencontrei aquele que talvez seja o mais dos mais marcantes, lá, do mesmo jeito de sempre, só provavelmente mais maduro que quando nos conhecemos, ele com 18, eu com 23. Virgem, então, ele. E ficamos uns dois anos entre encontros, desencontros, tensão, prazer, carinho, essas coisas inerentes ao se gostar, até dispersarmos, cada um pra um lado, por mais que uma vez por semestre eu tenha cruzado com ele na Unisinos, onde também estuda, onde também vivemos coisas legais juntos.
Talvez tenha sido a pessoa que até hoje mais me despertou a vontade de casar, mas o tempo em que nos encontramos não permitia. Agora já não é mais possível. Assim é a vida: quase nunca as pessoas se encontram na hora certa, no lugar certo. E quando se encontram, talvez não sejam a pessoa certa um para o outro. Não há porque ter choro, como já teve: é assim e ponto.
Aos 22, bonito como sempre, certamente mais tranquilo que antes com seus problemas, está ali: virou uma foto. Da foto um recado de um moço da minha idade, talvez um pouco mais. Um recado todo cifrado. Perfil do moço. Album do moço e: lá está Ele, com uma legenda: "Meu guri"(ou algo que o valha, pouco importa). Um choque esperado em mim e a impressão de que preferiria não ficar sabendo.
Porque, mesmo gostando das pessoas e querendo que elas sejam felizes, não queremos que elas sejam felizes com os outros, mesmo que faça dois anos que essa pessoa saiu da tua vida, pra sempre?
Egoísmo. O mais duradouro dos sentimentos...
terça-feira, agosto 16, 2005
Identificação
Há alguns posts atrás disse que tinha visto o filme A insustentável leveza do ser. Agora falo do romance de Milan Kundera, que resolvi ler novamente. Tinha o feito há cerca de uns 10 anos, quando era um jovem ainda. Não que não mais o seja. Mas agora tive condições de entender muito e, em especial, me identificar demais com o protagonista Tomas. Que personagem impressionante!
Com dificuldade pra conceber a fidelidade como norma, se aventurava entre dezenas de mulheres, mesmo amando muito a sua esposa. Um sujeito que preferiu deixar de ser renomado cirurguão para virar camponês apenas para não se "retratar" perante o governo autoritário. Me vi em Tomas, em tudo isso. Na necessidade de se indignar, de se manter vivo, digno, autêntico. O preço da inautenticidade é alguma coisa parecida com a morte em vida. É esse o ponto. E a confusão na forma de amar também fascina em Tomas, como me perturba.
É o peso. E a leveza.
terça-feira, agosto 09, 2005
Deprê, geralmente
Tem datas que são geralmente depressivas, se a gente não aprende a administrar e se precaver, necessariamente vira depressão.
Assim é natal, ano novo e, não menos, aniversário. Antes eu até gostava de aniversário, mas quando você está vendo os 30 anos chegar, deixa de ser agradável perceber o tempo. Odeio aniversário meu, portanto.
E aí você tem que fazer uma festa pros amigos, marcar em algum bar. Alguns aparecem porque gostam, outros porque se sentem na obrigada, outro nem aparecem - e é destes que você lembra. Decepção, chateação. Vai que na hora em que você marcou a tua festa você tá de mau humor? Tem que guentar... Feliz, ainda... Por isso não vai ter festinha esse ano. Ao menos esse ano não.
Já teve vezes em que o dia do meu aniversário foi muito trash, tipo ficar em casa sozinho me chapando, batendo punheta e vendo o Jornal da Ana Paula Padrão. Ou pior ainda: entrar em reflexões tão profundas que, necessariamente, vira choro. Ao menos tão sendo super bom esse momento em que fiz 27: estou terminando de dar uma virada positiva na minha vida, estou feliz, mesmo que ainda pobre. Só, mas satisfeito comigo, ao menos, que é quem, afinal, eu tenho que aguentar, sem fuga. O essencial, eu tenho: perspectiva.
Mas presentes eu ainda tou aceitando. Grana na conta(desde que não seja dinheiro provindo do Marco Valério), livros, CDs, um DVD player, esse tipo de coisa.
E o Inter podia ganhar amanhã do Corinthians. Ia ser uma baita presente, também.
Pelotas, sempre
Estava de aniversário no domingo último. Fui por isso passar o final de semana em Pelotas, junto de meus pais e minha irmã, onde não ia há uns três meses, por sinal.
Como sempre, foi bom. Mas por algum motivo em especial, estava mais sentimental com Pelotas, dessa vez. Encontrei Andréa num barzinho como só lá tem - aqui até tem, mas são caros os bares agradáveis, quentes e com música ao vivo de qualidade. Conversamos um tanto, ela me deu um livro de Neruda de presente, essas coisas tão boas, que só uma pessoa que conhece tanto a gente é capaz de fazer pra agradar. Depois fui caminhar pela noite, como fiz tantas vezes quando era um adolescente reprimido, que não sabia aproveitar as belezas da noite, ao menos não todas. Fui ao Odeon, um bar guei onde há quatro anos conheci Fernando(com quem fiquei um ano, quase). Dessa vez não conheci ninguém, mas ao menos dancei um pouco, olhei caras diferentes e senti mais que nunca que preciso sair.
Sexta estarei no Ocidente.
segunda-feira, agosto 08, 2005
Mais um livro de Caio
E terminei de ler Pedras de Calcutá, um dos livros mais duros que já li, talvez mais pesado que a média do que Caio Fernando Abreu tenha produzido. A impressão que perpassa o livro todo, com seus variados contos, é de desalento, tristeza, o tempo todo, num autor que tem alguns textos bonitos e alegres, mesmo que poucos. Se não alegres, ao menos mais alentadores que os desse livro, quase um livro de terror.
Mas é um grande autor, talvez exatamente por isso: saber descrever os sofrimentos, angústias, temores e derrotas não apenas da sua, mas das muitas gerações anteriores e posteriores à sua.
A grandeza de Caio ainda não foi claramente vista por todo o país, talvez nunca o será. Mas é incontestável por quem ententa de literatura. E da vida e seus sofrimentos, principalmente.

Há muito li o livro e nunca tinha buscado ver o filme. Gostei tanto que já estou começando a releitura do romance de Milan Kundera. Se trata de A insustentável leveza do ser, filme dirigido por Philip Kaufman, com maestria. Tendo como trio protagonista os excelente Daniel Day Lewis, Juliete Binoche e Lena Olin. Dos dois primeiros, ouso dizer que nunca vi um filme ruim.
A história do médico tcheco que tenta buscar a liberdade sexual em meio a uma onda de liberdade política que parece viger em seu país e que depois é sufocada pela invasão soviética é uma história marcante, ao menos pra mim, talvez porque eu seja um sujeito dos anos 60 perdido nesses tempos de hoje, é uma história existencialista, antes de mais nada. E que bom!
E o filme, em si, é magnífico, com a marca do diretor, o mesmo de Henry & June, e, por isso mesmo, me lembrei o tempo todo desse outro belo filme, sobre a liberdade, o sexo, a transgressão e os sofrimentos advindos disso.
terça-feira, agosto 02, 2005

Obviedades de que, ainda assim, devemos falar
É muito óbvio fazer um post elogiando o Chico Buarque, certo? Concordo. Ainda assim, o faço.
Vi no domingo um de uma série de programas que a Bandeirantes está fazendo a respeito daquele que talvez seja o maior de nossos gênios vivos. E Chico é encantador, falando tímido, todo enroupado, num café de Paris. Como ficaria encantador falando na beira da praia no Rio ou numa avenida barulhenta de São Paulo.
Chico é gênio da raça. Tudo o que ele faz é incomum. E ele é o mais bonito - em sentido amplo, esse bonito - dos homens brasileiros. Nada a mais que se disser pode ser novo. Ou deixar de ser óbvio.

Raramente consigo fazer isso, mas tinha tempo e o fiz no final de semana: tirei filmes no vídeo, para curtir em casa. A impressão de frustração foi o que perpassou quase que as quatro horas da soma dos dois filmes. Apesar de que a gente se frustra com aquilo que espera muito. Não sei.
Colateral, de Michael Mann, protagonizado por Tom Cruise e Jamie Foxx é razoável como idéia, mas mal encaminhado no seu roteiro. A idéia: um matador de aluguel tem um roteiro de mortes a executar e acaba sequestrando um taxista, que se obriga a acompanha-lo nesse trajeto. O suspense, a situação psicológica em torno disso, chegou a cheirar um grande filme, em sua primeira meia-hora. Depois, virou um filme de ação/aventura, com as banalidades típicas desse tipo de filme. E um Tom Cruise de barba branca que, além de charmoso, estava bem no papel do assassino, vira o velho herói-de-sempre, num filme com os tiros e as "frias" de tantos outros. Uma pena.
Em Orfeu, filme de Cacá Diegues, o buraco é mais embaixo e a tristeza começa e termina com a fita. Com a possibilidade de rodar para o cinema a peça de Vinicius de Moraes - Orfeu da Conceição - e a lenda, em si, o diretor contava com alguns bons atores, como Milton gonçalves, Zezé Motta e outros e ainda com uma trilha sonora preciosa, coordenada por Caetano Veloso. Mas o filme é pretensioso - talvez Diegues imaginou que faria um filme maior que o Orfeu francês, de Jean Cocteau -, tem protagonistas sofríveis - Toni Garrido, Patrícia França e Murilo Benício -, cenas absolutamente inexplicáveis, um roteiro ruim, diálogos lamentáveis, tudo isso.
E olha que costumo ser tolerante com filmes nacionais.
sexta-feira, julho 29, 2005
O meu Sim! no Referendo
Instrumento previsto desde a Constituição de 88, pela primeira vez ocorrerá um referendo para submeter projeto de lei aprovado pelo Congresso ao crivo do eleitorado. 2005 - 88 = 17 anos. Somente 17 anos depois!
Isso é um primeiro sinal de que vivemos, talvez, uma democracia meio frágil, ainda. No Uruguai, por exemplo, a população foi consultada sobre as privatizações de empresas estatais estratégicas e disse não.
Pela primeira vez enfrentamos um tema que será objeto de crivo popular. Na França, Estados Unidos e outros países que não lembraria agora, é costume que o eleitorado, junto às eleições em que elege os seus governantes, decida sobre temas polêmicos como aborto, união homossexual, dentre outras coisas tantas em relação ao qual o povo deve se manifestar. Isso amadurece o debate, faz com que a politica deixe de ser igual apenas a eleger um representante que dificilmente me representa e, ali adiante, pode até cair num esquema de corrupção. E que, na melhor das hipóteses, vai apenas ele, zelar pelo que o país decide, sem me consultar. Formas de democracia mais direta ou ao menos participativa são fundamentais para que o povão entenda porque é melhor assim que viver sob o tacão de um milico ou de um Garotinho da vida.
Mas sobre o que vamos tratar, no referendo de final de outubro, mesmo?
Sobre o estatuto do desarmamento. Em resumo, essa legislação aprovada será confirmada(sim) ou revogada(não) de acordo com a posição da maioria do eleitorado brasileiro, em voto obrigatório(sou a favor do voto obrigatório em eleições, mas talvez em referendo não fosse necessário). Pela nova legislação, ficam restritíssimas as possibilidades de um cidadão comum ter direito a porte de arma, além de ocorrer uma restrição também forte ao comércio das mesmas. Basicamente terão direito a tal agentes do Estado, tais como policiais, promotores públicos, esse tipo de gente, seja no uso em função ou para proteção própria, se bem justificado. Para os demais, porte, comércio ou guarda de armas é crime.
Por que sou a favor?
Me criei em meio a armas. Meu pai é da primeira geração que, nascida no meio rural, vai para a cidade, na década de 50/60. Para eles, a arma é como parte das coisas fundantes da família. E isso repercute em tudo. Mesmo na cidade, armas e mais armas. Meu pai até hoje tem seu revólver e diz que vai resistir em largá-lo. Minha mãe recentemente escondeu em algum lugar que ele não sabe e que ela garante, não vai revelar. É uma polêmica, sempre, esse assunto, acho divertido.
Um primo de minha idade, aos 13 ou 14 anos, estava brincando com sua arma de pressão com um amigo - eu também tive arma de pressão, quando pequeno, uma espécie de "primeira arma" - quando resolveram pegar a arma do pai do segundo e testar. Meu primo levou um tiro no pescoço que o deixou tetraplégico. Desde então nunca mais vi Maurício, uma das tantas vítimas de acidentes com armas, que matam.
Meu pai certa vez quis resolver a briga dele com um vizinho dando tiros. Tivemos de bater nele pra evitar uma tragédia. Assim como tantas vezes as brigas de trânsito se resolvem assim: matando um sujeito que bateu no seu carro. Ou que olhou pra sua mulher. Pessoas despreparadas, com uma arma na mão, se sentem mais "machas" e isso tende a dar merda.
Tem o contra-argumento de que os bandidos não estão sendo desarmados. E que o cidadão "de bem" teria o direito de defender seu patrimônio e família. Esse é outro problema: o Estado tem - e não cumpre, é verdade - a obrigação de dar segurança às pessoas, sua vida e até seu patrimônio. Se cada um resolver se defender, sem saber como faze-lo, será a barbárie. É mais provável que uma arma seja usada para ferir uma criança curiosa como o Maurício um dia foi do que para salvar um despreparado dono de casa de um assalto contra um bandido que sabe usar a arma desde pequeno pra se defender. E quem hoje quer uma arma pra se defender, amanhã vai achar que a melhor defesa é o ataque, coisa que só o técnico do meu time não concorda. E aí temos as tragédias... O problema das armas que circulam ilegalmente não é resolvido armando a cada uma das pessoas, contra isso só o combate ao crime organizado, a fiscalização de fronteiras, do contrabando de armas. Mas dai ninguém fala...
Por isso, eu sou a favor do Sim! no referendo de outubro. E deixo dito, desde logo...
terça-feira, julho 26, 2005
Cem Anos de Solidão
Terminei de ler mais um livro de Gabriel Garcia Márquez. Tenho esse livro, que comprei com uma coleção, em 96, de "Mestres da literatura contemporânea". Tinha começado outras duas vezes e nunca ido até o fim, por uma série de desestímulos variados.
É uma grande história, mas sinceramente, não supera outros que já li dele, especialmente O amor nos tempos do cólera. Mas a cada dia mais percebo que Márquez é um dos grandes escritores de todos os tempos. E que a identidade latino-americana atual deve muito ao que esse grande escritor produz.
quarta-feira, julho 20, 2005

Se é possível falar de umas cinco ou seis figuras mágicas no cinema de todos os tempos, uma dessas é Marlon Brando.
Ontem vi - dentro de um ciclo de filme chamado "Revolucionários, passando na Casa de Cultura Mário Quintana - Queimada, filme da década de 70, em que Brando interpreta Willian Walker, um agente da coroa britânica que é mandado para uma antilha portuguesa na América Latina em meados do século XIX, com o objetivo de insuflar uma revolução de independência dessa ilha, que era uma colônia portuguesa. Nessa época ele alia um plano orquestrado por brancos com uma luta de guerrilhas de negros escravos, que ajuda no processo de independência da ilha. Livre de Portugal, Queimada passa a ser explorada por uma companhia inglesa de açúçar.
Dez anos depois, a companhia de açúcar chama Willian Walker para interceder novamente na antilha, dado que José Dolores, líder negro inventado por Walker, mantém a guerrilha, contra a elite branca pró-inglesa que agora governa a República de Queimada. E Wlaker dessa vez comanda o massacre dos negros, queimando toda a ilha até matar um a um os guerrilheiros.
O filme cala fundo. Mesmo com defeitos técnicos, não sendo exatamente um primor, é uma incrível alegoria sobre o poder da economia sobre o poder político, coisa que hoje parece ainda mais clara; sobre a opressão dos negros, que segue forte; além de tratar de diversas outras coisas sobre as relações humanas, sobre a maldade, tudo isso. Queimada é um filme e tanto, mesmo que pouco seja lembrado, em qualquer espaço que seja.
segunda-feira, julho 18, 2005
Um domingo para lembrar
Ontem foi um dia pra ficar, de bom que foi. O final de semana todo, de algum modo.
Sábado mais com a família, sem sair do portão de casa. Ao final do dia, uma janta com a família, chocolate, vinho, boa conversa, bom sono, por conseguinte.
No domingo então, apesar da chuva fina que caia quase sempre, com raros interlúdios de sol, eu fiz o que tinha pra fazer, com bom rendimento. Fiz o meu melhor concurso até aqui, independente se passarei ou não, para uma vaga no Tribunal de Contas do Estado. Uma prova relativamente fácil, que se tivesse estudado, tinha feito ela pra concorrer à vaga, de verdade. Mas apenas uma semana de estudos não permite isso... De toda forma, se sentir capaz é sempre bom, animador.
E depois fui ao Beira-Rio, ver meu time tocar 5 a 2 no rival mais direto, o Juventude de Caxias. Coisa rara, animadora, entusiasmante, capaz de tornar final de semana pleno. O futebol tende a ser o melhor estupefaciante existente, mais que qualquer outra droga que já tenham inventado. Tenho sustentado essa tese, nesses meus tempos de caretice, que tem durado. E o futebol com um amigo novo, feito pela net, que tem me deixado um pouco tremido... Vamos vendo no que dá...
A peste
Terminei ontem de ler A Peste, de Albert Camus, que procurei ler pra ter maior conhecimento da obra desse autor, depois de ver um documentário acerca dele, da qual tinha lido o mais celebre dos seus, O Estrangeiro.
O romance trata da tragédia de uma cidade argelina enfestada pela peste. E a partir dai desdobra as situações possíveis com seus personagens, dramas e um cenário intrigante.
De uma tradição literária mais realista, preocupada mais com o conteúdo, com as muitas reflexões e pouco com a forma, Camus é um grande autor, sem dúvida. Impactante. Com quem tenho encontrado lá algumas afinidades. É sempre bom ler coisas que nos fazem pensar para além do instante, textos que, dias depois, farão "cair uma ficha" quando menos esperamos.
De conferir mais coisas. Até uma biografia dele ia bem...
sexta-feira, julho 15, 2005
O que foi feito da vida?
De tudo o que a gente sonhou...

E agora está tendo um ciclo na Usina do Gasômetro sobre o cinquentenário da morte de Thomas Mann. Estão passando diversos documentários sobre o escritor e o clássico Morte em Veneza(1971), de Luchino Visconti. Esse o filme que vi no sábado passado.
O filme é maravilhoso, se formos resumir o comentário. Absolutamente bem dirigido, com fotografia, direção de arte e todas essas coisas de um primor excepcional. O filme consegue transpor uma difícil história em uma adaptação exuberante. Qualquer coisa a mais, pode ser um exagero falar.
quinta-feira, julho 07, 2005
Nada será como antes
O post anterior era sobre o fim de uma relaçãozinha destas tantas que a gente tem por aí e passa. Um mês é quase nada da vida da gente, além de trinta dias em que se fez algumas coisas produtivas e se esperou para receber o mísero de todo início de mês, pagar as contas e seguir se endividando. Um mês é nada na vida.
Mas hoje eu estou doído por outra relação que termina, essa mais longa. No dia 07 de julho de 2005 termina uma relação que havia começado em 04 de maio de 1994. São onze anos, portanto. A minha relação com o PT.
Depois de relutar nos últimos tempos, hoje formalizei a minha saída, depois de dedicar os melhores anos da minha vida a construir um sonho: o de mudar o mundo, a partir da mudança do meu país. Tudo escorreu entre os dedos e o final foi trágico.
Eu não deixo de ser um sujeito que acredita nas mesmas coisas de quando eu tinha 15. Sigo achando que as pessoas devem estar num partido que organize suas idéias para um mundo melhor - ou pela manutenção desse que aí está. Mas entendo que a cada dia fique mais difícil acreditar nisso.
Em breve devo estar me filiando ao PSOL, muito por um instinto de sobrevivência, para seguir acreditando em alguma coisa, seguir tentando encontrar doidos como eu, pra seguir em frente. Mas nunca mais será como antes. De agora em diante meu coração e minha mente sempre verá a disputa entre um lado que precisa sonhar e outro que secou.
Enquanto isso, aquele menino tímido de 15 anos que queria mudar o mundo está chorando muito; o pós-adolescente aqui apenas sente uma dor forte no peito.
segunda-feira, julho 04, 2005
De novo...
E de novo eu tou solteiro. Mas diferente de outras vezes, estou bem, sem qualquer dúvida e sem grande tristeza. Toda experiência é válida. Essa foi muito. Ponto final.

Vi, portanto, um documentário sobre Sartre, nesse ciclo sobre o existencialismo e sobre o centenário desse autor. Se tratavam de dois programas para a TV chamados de Há motivos para nos revoltarmos.
Minha admiração por Sartre, Simone, Camus, tem a ver não tanto com concordar com tudo o que escreveram ou fizeram como sujeitos, mas porque o faziam. Vivemos num tempo em que lutar por ideais é algo demodé, coisa de trouxa.

No final de semana, fui ao cine, aproveitando que tinha recebido parcela do meu salário. Fui ao último dia de um ciclo sobre existencialismo em que passava, além dos dois documentários que vi, um sobre Sartre e outro sobre Camus, o filme
Orfeu, de Jean Cocteau, protagonizado por Jean Marais, seu companheiro, por sinal.
Um clássico raro de se encontrar, em chance única de ver no cinema. Não conhecia a lenda de Orfeu, não vi o filme brasileiro sobre a mesma história, nada disso. Apenas conhecia a história da relaão entre os dois, livro que li do acervo de minha avó, ainda adolescente reprimido, com muita curiosidade, por retratar um amor aberto entre dois homens nos anos 50.
Quanto ao filme, há clássicos superiores, muitos deles. Mas bonito de ver, curioso, essas coisas todas. Há um abismo, apenas, que separa esse tipo de fime daquilo que a gente pode ver diariamente, tipo Mr e Mrs Smith.
quarta-feira, junho 29, 2005
Gatão
De repente eu me descubro atraindo. Até demais pro meu gosto...
Terá sido tudo isso só porque eu emagreci dez quilos?
O certo é que eu não quero complicação pro meu lado. Só quero dar certo com uma pessoa. De preferência esta que estou.
terça-feira, junho 28, 2005

Eu queria ter sido um existencialista.
Teria sido o mais complexo deles.
E ia tentar ser o mais pretensioso.
Mais calmo
Em relação ao post anterior, estou mais calmo. Sexta encontrei Anderson(namorado? ficante? não sei, nem me importa tanto, mais). Pela falta de outra coisa possível, inventei pra minha avó que "vou sair com um amigo meu, dai ele pode parar aí em casa?". "Sim, claro". E assim foi. Pouco antes da hora em que todos os dias ela dorme, saimos pra dar uma volta na 3ª Perimetral, pra pouco depois voltar de nossa incursão pela noite. E sexo, muito sexo. Dos muito bons. Mas o espaço é reduzido, o tempo é quase nenhum, as chances e as identidades são poucas.
Mas curiosamente saí daquele encontro feliz pelo que foi e tranquilo em relação ao que também não é: não posso apostar em coisas que não tem como se viabilizar. Parar de sonhar com coisas que não se farão é uma maneira de não quebrar tanto a cara, não chorar tanto pelos cantos. E assim me sinto melhor, apesar de tudo.
Tanto que não ligo mais todos os dias. Aliás, não liguei desde então. Não que não queira mais. Quero muito. Mas eu vivo no concreto...
quinta-feira, junho 23, 2005
O medo de ser feliz...
Outro dia conclui.
Passei muito tempo "no piloto automático" com relação aos meus sentimentos e tesão. Dois anos quase sem um beijo sincero, um toque sincero. De repente acontece alguma coisa, uma ótima coisa. Mas há limites: a mesma dificuldade de levar a vida, horários ruins, distâncias longas, a pouca grana, a falta de uma casa própria onde se receba alguém pra ficar junto, até a impossibilidade de dar uma ligação.
Mas os encontros são ótimos, há uma interação que parece real, há uma firmeza, uma coisa qualquer que encanta, recíproca.
E eu assim que fico só, me sinto inseguro, com medo, chego a quase estourar pelos cantos. Talvez porque já fui enrolado em outras vezes, temo isso. Se chega a não atender uma ligação, eu passo a ter todas as certezas negativas que são meras bobagens.
E eu tenho a certeza, quanto estou tentando uma relação, que eu preciso mesmo de terapia. E o principal eu já sei: tenho um pouquinho de medo de ser feliz.
quinta-feira, junho 16, 2005

É preciso amar!
Aquela história toda de uns posts atrás sobre uma pessoa que conheci no trem, saca? A gente há duas semanas tá junto... Eu tou feliz da vida. Creio que ele também, tudo aponta pra isso.
Só isso justifica assistir Mr e Mrs Smith, um tremendo abacaxi protagonizado por Brad Pitt e a linda Angelina Jolie, em que interpretam um casal de matadores profissionais. O filme é digno dos piores filmes de ação sem propósito, como o são boa parte dos filmes de ação, afinal. Não lembro de imediato de outro filme com tanto clichê reunido, com tantas situações absolutamente inverossímeis. O mundo todo tenta matá-los e eles não morrem. E assim se passam duas horas. Mas uma coisa há que ter certo: de tão fora da real, chega a divertir, se você não se irritar nos primeiros quinze minutos. Há que se estar de bom humor, bem acompanhado, essas coisas todas...
A diferença que faz estar gostando de alguém...
terça-feira, junho 14, 2005

No domingo, fui ver Melinda e Melinda, o mais novo Woody Allen. Aliás, Allen é uma das coisas mais antigas pra mim: desde pequeno, fui vendo seus filmes, sempre gostando muito da ironia dos diálogos, da capacidade de gerar situações inusitadas, apesar de concordar com as críticas de que é um cineasta que só retrata gente rica, branca, essa coisa toda. Mas isso não tira os méritos que ele tem.
Mas Melinda e Melinda é um filme menor na sua trajetória: narra praticamente a mesma história, sob dois enfoques: um dramático e outro comediado. Tem diálogos inteligentes, ironia, situações interessantes, mas nunca no grau de outros filmes anteriores, bem mais reflexivos ou bem mais engraçados. Ainda assim, sempre é um bom filme.
sexta-feira, junho 10, 2005

Não era a minha opção preferencial pra ver ontem, mas estava ali, na lista. Pela composição de horários, rolou: O cárcere e a rua, documentário de Liliana Sulzabh sobre a realidade da Penitenciária Feminina Madre Pelletier, de Porto Alegre, a partir da vida de três de suas detentas, duas em processo de saída para o regime semi-aberto e uma recém-presa acusada de matar o filho. Através dos depoimentos delas, vai se analisando a forma como as mulheres pagam as penas no país.
1)Eu já estive - e narrei em outra oportunidade - na referida Penitenciária. Confesso que, apesar da tensão, me surpreendi com a limpeza e o clima de aparente tranquilidade que, dizem, é a regra lá. Nada que se compare com um presídio masculino, que nunca entrei e, confesso, não sou apaixonado pela idéia de entrar.
2) Mesmo com dúvidas, tendo a concordar com aqueles que pregam o que se chama Garantismo Penal, ideologia que prega que as penas não regeneram o ser humano e talvez não sejam exatamente a forma de solucionar o problema do crime na sociedade. Ainda mais em se tratando da idéia sempre reiterada de aumentar penas como resposta a crises de violência, uma das equações mais torpes que o senso comum reproduz como panacéia.
3) Nesse tema, em especial temos a questão das mulheres, que normalmente já tem maiores dificuldades de colocação no mercado de trabalho, tem os filhos pra cuidar e todas as dificuldades das quais os homens, ricos ou pobres, se livram, com uma decisão, apenas. Portanto, quando se fala em mulheres presas, temos mais variáveis a agravar o debate social e filosófico.
4) O que talvez supere tudo isso, pra quem não se disponha a toda essa reflexão anterior, pode se resumir naquilo que meu parceiro ao ver o filme disse, na saída: "ver esse filme faz a gente valorizar mais a liberdade tem e faz a gente pensar duas vezes antes de julgar as atitudes das pessoas".
5) Vejam esse filme, antes que ele saia de cartaz e, talvez, do imaginário e do debate das pessoas!
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